MIGUEL ARAÚJO

Crónicas

Visão

Os nomes dos cafés

26 Jan 2017

Visão

Os nomes dos cafés


O Fernando Pessoa defendia que a mentalidade

portuguesa se caracteriza fundamentalmente pelo

provincianismo. Por provinciano, entendia todo

aquele que ama o progresso, que sonha com o que

de melhor e mais moderno emana do estrangeiro,

que de certa maneira inveja a cultura dominante

incorporando-a, de forma mais ou menos trôpega,

no seu próprio viver. Venerando o novo, não pela

natureza prática e utilitária da novidade em si, mas pelos seus aspetos

formais e acessórios, o provinciano é aquele que se dirige a um

Shopping para experimentar as escadas rolante novas. Eu, que levo a

vida a viajar pelo nosso país, sou fascinado pelos aspetos visíveis deste

traço mental que nos é comum a todos. E é por isso que sou bastante

sensível aos nomes dos cafés. Os nomes dos nossos cafés refletem

sempre um ideal de vida. Remetem para um lugar distante, melhor,

um dourado Shangri-la onde a vida se cumpriria enfim. Os nomes dos

cafés, correspondentes a esse lugar de sonho e idílio, vão mudando

através dos tempos. O tal provincianismo que lhes é inerente é que não.

Os cafés mais antigos, garbosos, de pé-direito generoso, empregados

de colete e laço, abundantes nas zonas históricas, são dum tempo

em que a alta cultura falava francês. Têm nomes que refletem a nossa

veneração pela velha Europa imperial. São os Café Paris, Astória, Café

Rialto, Pastelaria Veneza e Café Imperial que a gente vê por aí. Segue-

-se a geração do sonho americano, dos filmes de Hollywood, da TV, do

homem na lua, do Marlboro Man. Surgem os cafés com toldos Lipton,

panikes, spur cola e jogos de setas. Chamam-se Café Dallas, Café

Hollywood, Snack-bar Popeye. Nos casos de maior expressão, os nomes

vêm mal escritos: Café Havay, Maiami Burguer, Jonnhy’s Bar. Um pouco

de sonho americano oferecido ao cliente enquanto lê a bola ao balcão.

Nomes que, neste mundo que se autorregenera, foram dando lugar, no

virar do século, a uma nova tendência. A tirania do cool deslocou o seu

eixo para outras paragens. Moda, Milão, noite, clean, urbano, minimal.

São os cafés com “café” no fim. Lounge Café, Fashion Café, Urban Café,

Silk Lounge. Cafés com pouffs cor de rosa e um plasma na parede

ligado na Fashion TV. Cafés cuja linha estética foi gizada pela filha dos

proprietários, mais sintonizada com estas novas tendências.

E eis que chegamos à atual tendência. O provincianismo pessoano

do batismo caféeiro corrente já não remete para uma América, Londres

ou uma Ibiza de modernidade desejada, mas antes para um tempo

anterior. No tempo que eu levei a escrever estas linhas, quase de certeza

que abriram novos espaços com nomes como a Bacalhoeira do Bairro,

A Leitaria da Bica, A Croqueteria do Bolhão, A Francesinheria de

Paranhos, ou A Mercearia do Campo Grande. É um claríssimo regresso

a um estilo algo “português suave”, de nomes funcionais, simples,

utilitários, numa estética de “forma submete-se à função”, claramente

Estado Novo. Os negócios desse tempo tinham nomes assim: a Casa

dos Tecidos do Chiado, a Loja das Meias de Alfama. Até as canções

davam pelo nome de a Costureirinha da Sé ou Uma Casa Portuguesa.

Eu não percebo nada de política internacional, geoestratégia ou

sondagens, mas olho sempre para os nomes dos café. E sei que os

nomes dos nossos cafés espelham sempre os nossos desejos de uma

vida melhor. E sei que, provavelmente, acaba agora mesmo de ser

desalojado um comerciante velhinho para dar lugar a um café chamado

a Petisqueira Lisbonense. A esse senhor será com certeza oferecido

um emprego, nem precisa de saber tirar cafés, basta que se deixe estar

ao balcão e tenha a idade e o sotaque autóctone indispensáveis para

conferir tarimba de autenticidade a esse espaço típico cujas paredes,

forradas a fotografias antigas de sorridente e benfazeja alegria no ofício

da panificação artesanal, ainda cheiram aos vapores da última demão

de tinta.