MIGUEL ARAÚJO

Crónicas

Visão

Os tontos chamam-lhe torpe

17 Jan 2019

Visão

Os tontos chamam-lhe torpe


No Aeroporto do Quénia, prestes a embarcar para Zanzibar, vivi uma experiência bastante caricata. A minha mulher e eu estávamos na porta de embarque, aguardando resignadamente pelo pequeno avião que nos levaria a Zanzibar. Ao todo, estaríamos ali uns 30 e como sempre nessas ocasiões o estado geral era de cansaço, impaciência, pressa. É neste cenário que surge um funcionário do aeroporto a informar, num inglês prático, neutro, de trabalho, naquele “international english” em que os habitantes deste planeta a custo se entendem, que apenas dez pessoas, das 30, poderiam embarcar, que as outras 20 ficariam num hotel providenciado pela companhia até ao dia seguinte, e que fosse o coletivo, esse grupo que até então apenas se achava unido pelo frágil novelo da coincidência do encontro, a decidir os dez eleitos, os afortunados, os ungidos, aqueles que iriam, dali a duas horas, estender a toalha nas finas areias alvas de Zanzibar. Éramos, de repente, 30 humanos implicados no compromisso do diálogo, da negociação, e vimo-nos forçados à inconveniência do debate. Dez haveriam de embarcar e 20 seriam encaminhados, a toque de caixa, para um qualquer hotel no interior do Quénia. Houve um belga, sábio e cavalheiresco, que propôs que fossem os mais velhos e os pais das crianças pequenas a embarcar. Uma grega em lua de mel barafustou, para grande embaraço do seu nubente, que teria de embarcar porque já tinha uma série de atividades lúdicas agendadas para essa tarde. A minha mulher e eu demos alguns passos atrás e fomos sentar-nos à espera que o tempo acabasse por resolver a contenda (fomos para o tal hotel, claro). Não havia qualquer motivo lógico que nos tornasse elegíveis. E a coisa lá se foi resolvendo. Mas o mais curioso de tudo foi assistir a esta pantomina desenrolar-se num inglês neutro, franco, um “international english” a que o mundo recorre em situações destas. Essa sim, a língua mais falada do mundo. E havia um senhor inglês, cuja vetusta idade não foi suficiente para garantir prioridade sobre o snorkeling da grega, que era o único que não sabia falar este esperanto estranho. Aí sim, encontrei uma função para mim. Como gosto destas coisas, consigo entender o sotaque inglês cerrado, talvez “geordie”, provavelmente de Newcastle, bem do Norte. Vi-me aflito, mas servi de tradutor. Ele, o dono da língua a que o coletivo recorreu para se entender, era o único que não a entendia nem se fazia entender. Traduzi-lhe as falas. Não foi o suficiente para sensibilizar a grega inflexível, mas julgo que fui útil. Ele percebeu que era para recolher a um hotel. Ele, o único alienígena de uma conversa na língua que lhe pertencia. O inglês tem isso, a sua versão neutra. É a língua do mundo, não poderia ser de outra maneira. É a língua que serve para os países não se bombardearem tanto uns aos outros. Uma fala esterilizada, prática, utilitária, à disposição de grande parte dos habitantes deste mundo. Mas curioso mesmo é pensar que também existe essa versão da nossa língua. É a língua portuguesa fervida de impurezas, anódina, anónima, insípida e incolor que se fala na televisão, a “correta”, a que se procura nos castings das telenovelas, aquela que fica depois de passar a esfregona palha de aço da pronúncia central, aquela à qual se têm de sujeitar todos os locutores, atores e demais profissionais falantes deste país que queiram continuar a sê-lo na TV. É por isso que a ascensão da minha conterrânea Maria Cerqueira Gomes, com o seu sotaque despretensiosamente fozense, fozeiro, “manteigueiro”, o sotaque portuense dos habitantes da Foz do Douro, a um programa matinal mainstream, me soa tão revolucionária. Julgo que nunca aconteceu. Todos os outros apresentadores tiveram de aprender o português central. E ali está a Maria com a sua pronúncia estranha, que é também a minha, a falar diariamente para o País. E sem precisar de tradutor.