Crónica por um triz
Hoje é o dia em que a crónica da VISÃO esteve mesmo para não acontecer. Eu costumo fazer como o Calvin, a maravilhosa criatura do Bill Watterson, cada vez que tenho de escrever a minha crónica quinzenal: deixo os 15 dias que tenho à disposição para o burilar do texto escorrerem por completo e a duas horas do fim pego no telemóvel e escrevo aquilo que me vier à cabeça, imbuído pelo estado de espírito calviniano ideal para a realização desta tarefa: o pânico de última hora. Não costuma falhar, nunca falhei até agora, porque é precisamente a iminência desse falhanço que me faz bulir as turbinas. Mas hoje foi o dia em que esse falhanço ia mesmo acontecer. Aliás, ainda pode, estou a escrever isto com a máxima velocidade que os meus polegares oponíveis permitem. Já só me restam alguns minutos, sinto-me a jogar um daqueles jogos de tabuleiro que se jogam nos setembros de família em que há uma ampulheta e no andar de cima da ampulheta não restam senão uns últimos grãozinhos daquele farelo branco. Eu não gosto de falhar com prazos, prometi à Sofia da VISÃO que ia entregar até às 11h00, deixa ver se consigo. Eis o que aconteceu de manhã: chamei um Uber para ir buscar o meu filho do meio a casa dos meus pais e levá-lo ao autocarro que o levaria ao campo de férias.
O Uber chegou, e houve qualquer coisa no condutor que ativou no meu coração algum hediondo preconceito: não simpatizei com o homem, algo nele me fez desconfiar. Ia eu na minha curta viagem e ia a pensar que chegando a casa dos meus pais, em vez de pedir ao senhor para esperar, como faço em circunstâncias parecidas, ia deixá-lo ir e chamaria outro, quando pegasse no meu filho. Ia a pensar nisso e noutra coisa ao mesmo tempo: ia a pensar no quão lamentável é o não existirem carteiras de homem. Estava a pensar que tinha de arranjar uma e andar sempre com ela, porque agora nesta altura do bom tempo ando sempre com calções de bolsos largos e os meus pertences são enguias, escorregam-me dos bolsos para fora. E pronto, cheguei a casa dos meus pais, agradeci ao senhor, subi, e reparei que o raio da enguia que é o meu telemóvel tinha-se-me escapado do bolso. Raios. Ainda por cima o meu telemóvel vive no silêncio. Não tinha telemóvel para chamar sequer outro Uber, mas lá me desenrasquei. O meu filhote lá apanhou a camioneta para o campo de férias. Nisto, o prazo de entrega da minha quinzenal prosa a esvair-se como grãos de farelo branco numa ampulheta de jogo de tabuleiro em setembro de família. Como é que eu ia explicar que desta vez não ia haver crónica? Eu no fundo, no fundo, sei que o mundo aprenderia a prosseguir em frente sem a minha crónica quinzenal. Os habitantes deste planeta aprenderiam a viver sem ela. Seriam só 15 dias e o ser humano é um bicho que se adapta. As fábricas soariam a sua buzina matinal. Os padeiros empreenderiam como normalmente no seu labor. Os vespertinos iriam para a forja. Os sinos das aldeias acordariam com os galos. Wall Street recolheria à sua azáfama normal, sem a minha crónica. Mas eu não gosto de falhar, comprometi-me com 3 500 a 4 000 carateres a cada 15 dias e isso é que interessa. Nisto, eu que me perdi na curva da tecnologia por alturas do Windows 95, consegui a custo instalar aquela aplicação de localizar dispositivos tresmalhados no telemóvel da minha mulher e pus aquilo a emitir um rugido à distância. A vítima do meu preconceito e da minha desconfiança ouviu os ganidos de desespero do meu dispositivo e ligou para a última chamada não atendida. Um cavalheiro. Veio-me entregar a enguia escorregadia à porta de casa. Deu-me o telemóvel, uma importante lição e uma última chance de me atirar à escrita automática destas linhas, agora que na ampulheta não resta senão um último grão de farelo branco.
Agora tenho de ir, vou ao NorteShopping procurar carteiras de homem.