MIGUEL ARAÚJO

Crónicas

Visão

O fim do álbum (2/2)

28 Dez 2017

Visão

O fim do álbum (2/2)


Em 2012 ofereci os meus CD todos. Centenas deles, encaixotados há anos. Andavam há já algumas mudanças de casa em caixotes por abrir. Não é que eu tivesse deixado de ouvir música. Discretamente, aos poucos, sem dramas, a pequena rodela de plástico foi deixando de fazer parte dos meus hábitos de audição musical. E não tinha mal nenhum, ouvia agora os meus álbuns de forma legal, prática, paga, ecológica, ergonómica e móvel. Tudo certo. Mas o que nessa altura me parecia uma simples mudança no formato (eu ouço música, essencialmente, a partir do telemóvel, através do Spotify), acabou por se revelar numa mudança mais profunda. Fui deixando, com o tempo, de ouvir álbuns. Toda a minha vida tinha catalogado a música de que gosto por álbuns. Sei os anos dos álbuns de que gosto, sei que músicas vêm em cada um deles, organizo, na minha cabeça, as fases dos artistas e bandas que eu mais gosto através dessa medida: o álbum. Na minha cabeça, ia julgando os lançamentos da obra artística de determinado artista pelo álbum mais recente. Andava com os álbuns no carro, na aparelhagem.

Nunca reconheci estatuto a coletâneas ou afins e sempre me incomodou ter que comprar um “Greatest Hits” ou um “Best Of” por incluir um inédito ou uma raridade, sempre achei isso uma ratice, um chico-espertismo de editora. Dito isto, nunca pensei que a minha migração gradual e natural para o streaming pudesse trazer alguma mudança a este meu modo de organizar a minha música. Mas a verdade é que já não ouço álbuns. Já não sei de que ano é ou em que álbum está esta ou aquela canção solta. Mais: sempre que sai um álbum de um músico que eu gosto resisto a ouvi-lo, porque, de repente, 14 ou 15 músicas de uma vez parece-me informação a mais para o meu short attention span, usando um termo moderno para diagnosticar uma epidemia que aparentemente grassa pelos nossos incautos jovens cibernautas. Sofro disso, admito, e não sei qual das 12 ou 14 músicas hei de escolher.

Às vezes pedem-me, em entrevistas, para sugerir um álbum que tenha andado a ouvir e a verdade é que fico sempre sem resposta. Eu agora ouço “listas”. Feitas por mim. E dou por mim a pensar que, na história da música popular gravada, o conceito de “álbum” popularizou-se mais por uma questão de conveniência comercial e mercantilista do que propriamente por uma questão artística. A história da música que eu gosto é feita de grandes canções, e não de grandes álbuns. De grandes escritores de canções, não de grandes escritores de álbuns. Só passado umas décadas é que apareceram os primeiros álbuns conceptuais, os primeiros álbuns artísticos, e mesmo esses são raros.

Dizem que a “era do álbum” começou com o Sgt Pepper. Mas mesmo os Beatles são muito mais de canções do que de longas-durações. Para começar, Hey Jude, She Loves You, Day Tripper, Penny Lane, Strawberry Fields e mais algumas dezenas das grandes canções dos quatro de Liverpool não vêm em qualquer um dos álbuns lançados pela banda. Lembro-me de o George Harrison, numa entrevista acerca de uma qualquer canção, não saber dizer ao certo em que LP dos Beatles é que ela foi lançada. Dylan igual, nunca sabe dizer de que álbum é que é certa canção de que lhe falam. Porque a grande maioria dos álbuns são uma conveniência contratual, comercial. Durante quase toda a minha vida de fã obsessivo de música eram a norma, da qual não se podia fugir. Era assim e ponto final. Mas quer-me parecer que a era do álbum está a chegar ao fim. O próprio Spotify organiza a música por “estados de espírito”. “Música para começar bem o dia”, “Música para jantar à luz da vela”, e todo um conjunto de moods que, por mais deprimentes que possam parecer a um fã de música, parecem querer apontar uma tendência clara. Mas quem sou eu para vaticinar os caminhos do mundo. Eu falo por mim: já não ouço álbuns. “Álbum”, enquanto padrão de medida, passa a figurar junto da jarda, da onça e do escudo: são medidas que já não uso.