MIGUEL ARAÚJO

Crónicas

Visão

Obviofobia

18 Out 2018

Visão

Obviofobia


A obviofobia é uma maleita mental pandémica, transversal a todos nós, uma doença infecciosa que se propaga um pouco por todo o planeta. Todos sofremos um pouco dessa condição. Os obviófobos temem (e, consequentemente, repudiam, desprezam) o óbvio. A obviofobia grassa por todo lado, em todas as áreas de atividade. Mas há uma área onde a obviofobia se manifesta muito clara aos meus olhos, porque é a área de atividade que eu acompanho apaixonadamente desde os 11 anos: a música popular. A obviofobia consiste em temer o óbvio e, consequentemente, negá-lo e desprezá-lo sempre que ele se revela em toda a sua resplandecente e clara “obvicidade”. No caso da música que eu tenho vindo a acompanhar, os casos mais óbvios de obviofobia são os que se associam àquelas que serão eventualmente as maiores bandas dos anos 90. A obviofobia beliscou e beliscará para sempre a reputação dos Pearl Jam e dos Metallica. Como sempre, as bandas e os artistas que se destacam por serem obviamente os melhores, mais carismáticos, mais autênticos dentro das suas tribos, com as canções mais brilhantes, acabam por ser inevitavelmente abocanhados pelas rodas dentadas do mainstream e começam a aparecer nos encadernamentos das colegas de turma mais caretas, nos pósteres das paredes dos quartos das irmãs mais velhas, nas revistas das salas de espera dos dentistas, nas estantes dos CD das primas ao lado das coletâneas dos Gipsy Kings, Pavarotti and Friends e Laura Pausini. É então que a obviofobia ataca.

Qualquer especialista em música de Seattle dirá que as melhores bandas são os Melvins e os Mudhoney e que os Pearl Jam serão porventura a pior. Qualquer especialista em Thrash Metal dirá que os Metallica não prestam, salvando eventualmente todos os discos até ao “Grammy Nominee” “... And Justice For All”. (Exclusive).

Mas o caso mais gritante de obviofobia é aquele que sufraga John Lennon como o Beatle que importa. De tão óbvia a superioridade do Paul McCartney sobre qualquer ponto de vista de que se olhe, os cronistas da nossa música popular moderna, acometidos pela mais óbvia e mesquinha das obviofobias, deram lastro à mais injusta, duradoura e pérfida das teses: a de que seria Lennon, e não McCartney, o verdadeiro génio artístico, o inovador, o transgressor, o psicadélico, o “artsy”, o inconformista, o da “fase das cores”. Morreu recentemente o genial Geoff Emerick, engenheiro de som de toda a carreira dos Beatles. Legou ao mundo a parte audível do seu trabalho, mas também um importante e discreto documento, um livro chamado My Life Recording the Beatles, onde torna claro (óbvio) quem era o verdadeiro líder, o inovador, o transgressor, o desbravador de novos caminhos, o mentor da fase pós-Revolver, o das ideias. Vem lá tudo descrito, é factual, é informação que não esteve disponível durante décadas mas que agora está. Deixa de haver desculpa. Irrita claro, o Paul McCartney tem a melhor voz, é o melhor músico, multi-instrumentista, o simpaticão. De tão óbvio que é, inegavelmente e a vários níveis “O” Beatle, manda a obviofobia automática lavrar tese contrária. McCartney morrerá de velho, irritantemente “sir”, irritantemente multimilionário, irritantemente genial a todos os níveis, constrangedoramente de bem com o mundo. Isso também não facilita nada. Paga o preço de se ter esquivado ao “Live Fast, Die Young”, o prato preferido da obviofobia. E claro, os obviófobos servem para parir teses que sejam o contrário de tudo quanto é óbvio. Se fosse para constatar o óbvio, para que serviriam os cronistas musicais, os especialistas, os do “métier”? A obviofobia torna óbvio refutar o óbvio. Eu tento controlar a minha obviofobia. Faço um esforço. Tento vencê-la. De tão óbvia aos meus olhos, a obviofobia mete-me um certo medo que me leva a repudiá-la, a desprezá-la. Onde anda esse CD do Pavarotti and Friends? Nunca lhe dei hipótese, deixa cá ver se presta.