MIGUEL ARAÚJO

Crónicas

Visão

Correr no Inverno

14 Fev 2019

Visão

Correr no Inverno


Eu gosto de correr junto ao mar. É o que me liga à rede sem fios inesgotável, infinitamente regeneradora, abundantemente generosa e criativa da Vida. Para uns é rezar, para outros é meditar, para a maioria será evitar tudo isso. Para mim é correr junto ao mar. Correr junto ao mar num pedacinho qualquer de terra pela primeira vez na vida é a bênção absoluta. Hoje tive esse privilégio, arrastei os meus ossos compridos, pesados e desengonçados pela arriba que vai da Praia Grande à Praia das Maçãs. Fui, vim, corri na areia, junto à rebentação, pela pequena Praia Grande afora, subi as escadas, corri pela arriba junto ao gradeado de madeira, andei nisto mais de uma hora. Que coisa maravilhosa, esta arriba, estas praias, num dia de sol em pleno inverno.

Correr no inverno é melhor do que correr no verão. Os personagens são muito mais ricos, os figurantes com que a vida nos cruza são prenhes de fermento idílico. Os corredores de verão vão sempre acompanhados de uma agenda muito específica, equipados a preceito de um rigor uniforme, a espremer bebidas isotónicas pela goela abaixo, sem mais nada em vista do que abater os pneus abdominais. As pessoas que assomam a estas orlas costeiras em recreio e lazer durante os meses sem erre também já se sabe ao que vão. Mas os que deambulam pelas praias de inverno, não.

Por qualquer razão misteriosa e insondável, os habitantes do nosso país não se aproximam das praias no inverno, nem mesmo em dias maravilhosos de sol como o de hoje. Os poucos, clandestinos vultos, que se aproximam da praia nestas alturas são aquelas pessoas que não querem ser vistas. São os que vão ruminar pensamentos pesados, profundos, de olhares obtusos, pregados no chão, aqueles pensamentos que não são para ninguém ver pensar. São aqueles que vão para a praia como quem se fecha na casa de banho, pelo direito a um momento de privacidade e recato. São as almas a quem a vida neste calhau de terra firme que vai daqui até à costa da Ucrânia empurrou, por qualquer razão, até esta borda. Como aquele senhor velhinho, de cabelo prateado, bem vestido, de jeans claros (roupa de garimpeiro americano, engraçado como a América conquistou o mundo pelo cinema), pullover bem passado, relógio reluzente, empoleirado em cima duma rocha a pescar à linha. A vida foi chegando este senhor mais para lá, mais para lá, até que ele encontrou o seu lugar numa rocha, na ponta de tudo, os dedos dos pés a abraçar a curvatura de pedra com força, essa força que ainda o agarra aqui, e ele a pensar de sobrancelhas hirtas e fartas de pelo branco que ao menos ali ninguém o chateia. E um saco de plástico do pingo doce ao lado, aberto, com peixes a rabear, o saco com as asas bem abertas, com cuidado e diligência, a diligência de quem andou num colégio interno onde ensinavam a fazer a cama como deve ser. Só pelo saco já dava para intuir que não era nenhum rapazote que ali estava. E a moça na praia, com uma cadela igual à Lassie (digo cadela por causa da Lassie, ideia burra, esta espécie terá machos também, claro que tem), aos círculos sobre si própria, talvez da minha idade, mais ano menos ano, sete camadas de roupa em cima, vestes étnicas, andinas, compradas talvez a bom preço (bom para quem vendeu), talvez no mercado de Camden, trajada num desalinho que já não pega, pegava em 1996, um gorro igual ao do John Frusciante no Under The Bridge, a Lassie numa de aproveitar a praia e ela a desenhar ós na areia com os pés, a ruminar pensamentos pesados, a aferir o quanto a vida não tendeu para a norma com que ela contava, ela sem querer admitir que é também uma norma, uma cartilha, aquilo que ela idealizou e por isso agora ali aos ós. Ou então a pensar o que fará aquele idiota a correr meio desengonçado em pleno fevereiro sempre a olhar nesta direção com cara de quem vai a ruminar pensamentos pesados.