MIGUEL ARAÚJO

Crónicas

Visão

A esmagadora minoria

21 Mar 2019

Visão

A esmagadora minoria


Eu não vejo os noticiários. Não é por distração, é mesmo um cuidado que eu tenho. Um cuidado com a minha saúde, com a saúde dos meus filhos. É uma regra cá de casa, temos o cuidado de não ver as notícias que passam na televisão. É um gesto ativo, o de armar essa proteção. Não é que não me interesse ao ponto de me estar a borrifar. Interessa-me não ver, ao ponto de ter o cuidado de desligar. Aquela informação entra, aloja-se nas células cerebrais, entra no organismo. Desligo o telejornal como quem veste um agasalho em dia de frio. As notícias são más, o que os noticiários decidem passar é nocivo. Eu tenho a certeza absoluta de que todos os dias acontecem coisas boas, dignas de notícia, dignas de alarde. Há sempre o bombeiro que chegou a tempo, o ministro que aprovou uma coisa boa qualquer, uma descoberta científica de esperança, o médico que salvou uma vida, o padre que conseguiu mover mundos e fundos para criar uma escola, a estrada que foi inaugurada a tempo, o gimnodesportivo que abriu com sucesso, a tempo e dentro do orçamento. Noticiar aquela desgraça toda é mesmo uma escolha, uma opção. A propagação da ansiedade, da preocupação, do ódio, da revolta, há de estar mais que provado, prende mais a atenção. O jornalismo necrófago, que fareja a podridão, sabe bem qual a lenha que serve de combustível à grande fornalha da opinião pública, que é a nova lei, o novo tribunal. Essa esmagadora minoria que ladra do alto e condena, julga, sentencia e aplica a pena sem direito a recurso, de modo automático. O jornalista fareja, abocanha, e os abutres vêm banquetear-se na carniça. O que fizeram com o Kiko Martins, o que fizeram com o Gonçalo Castel-Branco, o que fizeram com o Diogo Piçarra na altura do Festival da Canção. Ninguém quer saber de desmentidos, ninguém quer saber de nada. Quase todas as semanas, há o tema quente do momento. É um horror. É uma minoria, ruidosa e esmagadora, mas convém não esquecer que é uma minoria. Um artigo polémico no Facebook pode até chegar aos 5 000 comentários. Quem tenha paciência de os folhear assistirá com horror e espanto ao extremar de opiniões bipolares, metade para um extremo, outra metade para o outro, num pêndulo insano de insultos e ameaças. E fica a ideia de que toda a gente perdeu o juízo. Mas há que não esquecer que só o Facebook, em Portugal, tem 6 milhões de utilizadores inscritos. Utilizadores mensais ativos. 92% da população com ligações a tecnologias que o permitem. Isso, sim, podemos chamar de “toda a gente”. Pelas minhas contas, pegando num qualquer assunto polémico do momento, seja ele qual for, mais de 95% das pessoas nem sequer se interessaram. Não opinaram. Não insultaram ninguém. Não se sentem aptas a julgar, a condenar, a sentenciar. Têm bom senso. São moderadas. Somos todos nós, a silenciosa, arrebatadora maioria das pessoas que se chocam ao ver a esmagadora minoria a ter força de lei. A condenar pessoas ao desemprego, à depressão, à tragédia pessoal, familiar. A condenar pessoas a perderem tudo aquilo por que trabalharam a vida toda. Somos nós todos, quase todos, quase “toda a gente”, os que achamos que as redes sociais até são uma coisa porreira, dá para estar em contacto com os amigos que moram fora, a não- -sei-quantas vai casar-se, felicidades, beijinhos, essas coisas. É muita gente mesmo, somos muitos. E vamos estando atentos. Sempre que um conhecido nosso vocifera alarvidades publicamente no Facebook, nós reparamos. Comentamos entre nós, no mundo cá fora. Olha, parecia um gajo tão porreiro, comenta no Facebook, coitado. É como escarrar no chão, é grosseiro, é indigno, é nocivo para a sociedade, e nós estamos atentos. No fim, essa peçonha toda vai voltar para quem a asperge assim, dessa maneira reles, em todas as direções. É como reza a última frase da última música do último disco dos Beatles: “And in the end, the love you take is equal to the love you make.”