MIGUEL ARAÚJO

Crónicas

Visão

Os barrigudos

10 Jan 2019

Visão

Os barrigudos


Neste Natal que passou, a Ana e eu estávamos sem nenhuma ideia de presente para oferecer ao nosso filho do meio, que tem 4 anos. Demos por nós no Toys”R”Us perante uma apetecível caixa da Marvel com vários bonecos lá dentro. Era só pegar e andar, e havia pressa. Eu nunca fui fã de super-heróis da Marvel, nunca li nada dessas coisas, eu cingia-me aos gibis do Maurício e aos clássicos da Disney. Tirando o Super-Homem, que desde sempre e para sempre hei de associar ao Christopher Reeve, nem sequer sei quem são esses agentes heroicos de ar medonho, bestificado, geneticamente transformado e aterrador que garantem, vigilantes e incansáveis, a Ordem e o Bem em cidades cheias de arranha-céus onde quase sempre é de noite. É por isso natural que os nossos filhos nunca se tenham encantado por esse universo. Então talvez não fosse grande ideia. No entanto, o raio da embalagem chamava, era tentadora. Estávamos nos primeiros dias de dezembro e ainda dava tempo. Decidimos levar o raio da bonecada. Dava tempo, de facto. O que se passou nos dias seguintes foi um trabalho paciente, subliminar, discreto, engenhoso e vil da mais reles das manipulações. Nesse dia, chegámos a casa, a Ana sentou-se, colocou o alvo da nossa estratégia no colo e perguntou se conhecia o Homem-Aranha. O Homem-Aranha daquele pijama azul. Então, com carinho, desenhou o estranho e aracnídeo espécime e pediu, com paciência, se o nosso educando o coloria. Depois foi mostrando os amiguinhos. Várias aberrações meio homem, meio besta, foram desenhadas em suaves e elegantes contornos para posterior coloração infantil. Heróis e vilões foram googlados, ao longo do desfiar dos dias do nosso frio dezembro. Filmes com Legos da Marvel assomaram por coincidência aos vários dispositivos do nosso lar. A Mulher-Hulk, em toda a sua biónica e verdejante impetuosidade. O Homem de Ferro, o Homem-Formiga, o Thor, o Capitão América. Aos pouquinhos, o visado foi-se encantando por este mundo. Não foi preciso muito mais do que uma simples ação de soft power cultural e ideológico para tomar refém uma pobre alma inocente. Quando chegou a altura de escrever a carta ao Pai Natal, não houve surpresas: “fato do Homem de Ferro; escudo do Capitão América; boneco do Thor...” Ainda deu tempo. Primeiro, adquiriu-se o objeto. Depois, plantou-se, com manha e engenho, num coração desprevenido, o interesse por esse objeto. Quando chegou o dia, a genuína explosão de alegria foi merecedora de tão maquiavélicos métodos. “O Pai Natal é tão esperto!!”, exclamou em êxtase o nosso filho, alheio à troca de olhares comprometidos dos seus progenitores. A missão estava cumprida. Fizemos com o nosso filho o mesmo que quem manda no mundo faz connosco, incauto e crente povo debaixo do sol. Existe algures uma pandilha de barrigudos que manda no mundo. Que mete os Presidentes à frente dos países. Primeiro mandam fabricar os brinquedos e depois sentam-se connosco, com paciência e manha, a fazer desenhinhos e rabiscos, nós no colinho deles de língua de fora a rabiscar, lindo menino, linda menina, a linha de fabrico 24 sobre 24 a aviar a mercadoria que a nossa imberbe baba há de molhar mais tarde. Não são os Presidentes, nem serão sequer os Rotschilds e os Rockefellers com os seus sotaques de lord inglês e os seus olhos de dobermann diabólico. Imagino uns gordos de fato de treino, nas suas caves, de t-shirts suarentas, em cima de passadeiras rolantes, a contarem pulsações num relógio de pulso, a fazerem apostas entre eles. “Temos de pôr os gajos a interessarem-se por culinária. Prometi à minha filha.” “Atreve-te. Se fizeres isso, garanto-te que ponho os gajos a nunca mais tocarem em leite de vaca.” “O teu pai pôs os gajos a ouvir os Beatles, deixa-me lá pegar neste Jamie Oliver.”